Dino, Fux e o futuro das bets: STF interrompe julgamento de jogos de azar para criar medidas contra a ludopatia e limitar publicidade de apostas online

Escrito por Andres Lustosa - Contador e CEO
em 7 de agosto de 2026

Dino, Fux e o futuro das bets: STF interrompe julgamento de jogos de azar para criar medidas contra a ludopatia e limitar publicidade de apostas online

Entenda como o pedido de vista de Flávio Dino unifica o debate sobre jogos de azar físicos e o avanço das bets virtuais no STF

O Supremo Tribunal Federal vive um momento decisivo que pode mudar os rumos das apostas. O ministro Flávio Dino interrompeu uma votação crucial para ampliar o debate.

Com um pedido de vista, Dino travou a análise sobre a legalidade dos cassinos físicos e bingos. Ele argumenta que é impossível debater as regras do passado sem encarar a realidade atual das apostas virtuais.

A decisão adia o veredito por até 90 dias, tempo em que a Corte vai preparar um julgamento conjunto com as ações que questionam a Lei das Bets, conforme informações divulgadas nos bastidores do STF.

O voto de Luiz Fux e a defesa da lei de contravenções penais

Antes da interrupção de Dino, o relator do caso, ministro Luiz Fux, votou para manter a proibição dos jogos tradicionais. Ele defendeu a vigência da lei de contravenções penais de 1940.

Para Fux, a exploração dessas atividades se aproveita da vulnerabilidade humana. Ele destacou que o negócio lucra com a dificuldade que o jogador tem de calcular os riscos reais.

Em seu voto, Fux afirmou: “A exploração dos jogos de azar retira seu lucro da incapacidade cognitiva do jogador de avaliar os riscos envolvidos em sua decisão. Existe uma estrutura de sedução para fazer com que, mesmo perdendo, o apostador continue, de forma compulsiva, tentando promover uma virada no jogo”.

O relator também foi duro ao criticar os impactos sociais dessa prática. Segundo ele, não há provas de que a jogatina traga desenvolvimento econômico para o país.

Fux alertou sobre os danos familiares e de saúde, dizendo que o jogo “não há comprovação de que essa estratégia leve ao desenvolvimento nacional. Pelo contrário, facilita a criança a sair da escola, leva o homem revoltado a bater na mulher e cria problemas psiquiátricos irreversíveis.”

O dragão das bets e as propostas de Flávio Dino

Flávio Dino concordou com a essência do voto de Fux, mas defendeu que o STF não pode fechar os olhos para o mercado digital de apostas, que movimenta bilhões de reais.

O ministro sugeriu que parte dos tributos arrecadados com as bets virtuais seja destinada ao SUS. O objetivo é financiar tratamentos contra o vício em jogos, conhecido como ludopatia.

Dino também propôs limites rígidos para a publicidade das plataformas e a proibição de algoritmos que induzam as pessoas à compulsão.

Ao rebater a ideia de que o julgamento deveria focar apenas nas regras físicas de 1940, Dino disparou: “Não me parece que possamos, a essa altura, dar tratamento rigoroso ao jogo do bicho e ignorar esse dragão que são os jogos perversos das bets”.

Apoio dos ministros e a busca por uma visão holística

A posição de Dino recebeu o apoio imediato de outros integrantes da Corte. O ministro Dias Toffoli ressaltou o impacto devastador do vício em apostas na sociedade contemporânea.

Toffoli destacou que o problema “não é só sobre a lei da contravenção. Estamos tratando de uma doença que invadiu a vida dos brasileiros, de todas as idades e classes sociais. A sociedade está a pedir um tratamento mais amplo. É um mundo novo, complexo e difícil, não é o mundo da década de 1940.”

O decano da corte, ministro Gilmar Mendes, considerou a pausa de 90 dias saudável para que o tribunal construa uma “visão holística” sobre o fenômeno das apostas esportivas e virtuais.

Mendes comentou sobre a onipresença do setor, afirmando: “Nós que somos habitués do futebol vemos os patrocínios e todas as histórias que existem em relação a essa temática”.

Diante do consenso, o próprio relator Luiz Fux cedeu e aceitou o julgamento conjunto. Ele admitiu que a sugestão de Dino era excelente, declarando: “Entendi que esse caso era uma oportunidade de o Supremo mandar uma mensagem, dar um primeiro passo em relação aos jogos de azar, mas admito essa boa sugestão.”

O impacto da decisão em milhares de processos no Brasil

O caso concreto que motivou a discussão envolve um recurso do Ministério Público contra a absolvição de um homem acusado de explorar jogos de azar no Rio Grande do Sul.

A Justiça gaúcha havia entendido que a proibição da década de 1940 estava baseada em valores morais antigos que já não fazem sentido na sociedade atual.

Como o STF reconheceu a repercussão geral desse recurso, a decisão final servirá de modelo para todo o país. A definição do caso é aguardada com ansiedade por milhares de pessoas.

De acordo com dados do Conselho Nacional de Justiça, existem pelo menos 2.728 processos semelhantes suspensos nas instâncias inferiores, aguardando o desfecho desse julgamento histórico.

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