
Levantamento detalha repasses milionários do Banco Master para firmas recém-abertas que levantaram suspeitas de órgãos de controle
O mercado financeiro está sob forte alerta após a revelação de transações milionárias envolvendo o Banco Master, instituição controlada por Daniel Vorcaro, e uma série de negócios recém-criados no país.
Documentos enviados ao Fisco revelam que uma parcela significativa dos maiores recebedores de repasses do banco é composta por firmas que iniciaram suas atividades há pouquíssimo tempo, muitas delas logo após a criação do próprio banco.
As informações, que agora estão sob análise de investigadores, foram obtidas com exclusividade a partir de documentos enviados à CPI do Crime Organizado, conforme reportagem divulgada originalmente pela Folha de S.Paulo.
Os números impressionantes das empresas jovens criadas após 2021
De acordo com os dados oficiais analisados, quase 30% das empresas que receberam os maiores valores do Banco Master são firmas muito jovens. Essas organizações passaram a existir apenas a partir de 2021, ano em que a instituição financeira começou a operar com o nome atual.
Ao todo, o levantamento identificou que, entre as 117 firmas que receberam pelo menos R$ 5 milhões do banco, 35 se enquadram nesse perfil de abertura recente.
Somados, os pagamentos para essas empresas jovens criadas após 2021 giram em torno de R$ 870 milhões entre os anos de 2022 e 2025. O que mais chama a atenção é que ao menos uma dúzia delas recebeu repasses apenas alguns meses após serem constituídas.
Indícios de irregularidades e diretoras com auxílio governamental
Especialistas apontam que, embora a contratação de novas empresas possa ser legítima, o volume financeiro e o perfil de algumas firmas acendem alertas de possíveis negócios de fachada.
Um dos casos mais emblemáticos é o da empresa Telure, fundada em 2023, que recebeu mais de R$ 110 milhões do banco. A diretora cadastrada, Fabia Franca, recebeu R$ 5.000 de auxílio emergencial durante a pandemia, um perfil que diverge do esperado para uma executiva de alto escalão.
A mesma diretora aparece no comando das empresas Nanook e Utter, que juntas receberam mais de R$ 140 milhões. Somados, os pagamentos às três firmas de Fabia ultrapassam R$ 250 milhões, todas registradas com dados de contato inválidos, como o telefone 1111-1111.
Especialistas em segurança pública afirmam que dados cadastrais falsos, como telefones repetidos, são expedientes típicos de empresas de fachada usadas para ocultar a origem de recursos.
Políticos, famosos e escritórios de advocacia na lista de pagamentos
A lista de beneficiários de repasses do Banco Master também inclui figuras conhecidas da mídia e da política nacional, que criaram CNPJs recentes para prestar serviços à instituição.
Entre os nomes citados está o do apresentador Ratinho, sócio da Massa Intermediação, fundada em 2021, que recebeu R$ 20 milhões. A empresa afirmou que os contratos são de natureza privada, destacando que o apresentador atuou como garoto-propaganda do banco.
Outro caso envolve a empresa Pollaris Consultoria, do ex-ministro Guido Mantega, fundada em 2024, que recebeu R$ 14 milhões. O ex-ministro declarou que presta serviços de consultoria para diversas outras empresas do mercado.
Escritórios de advocacia renomados também abriram novos CNPJs em diferentes estados para receber repasses milionários. Advogados como Marcus Vinicius Furtado Coêlho e Walfrido Warde justificaram as novas filiais como parte de processos naturais de expansão de suas atividades.
Investigações policiais e o posicionamento dos envolvidos
Algumas das empresas jovens criadas após 2021 que receberam recursos do banco já são alvos diretos de operações da Polícia Federal por suspeitas de lavagem de dinheiro.
A Metanoein, por exemplo, recebeu R$ 102 milhões do banco e teve suas contas bloqueadas pela Justiça Federal do Rio de Janeiro após investigações apontarem ocultação de patrimônio em postos de gasolina.
Procurada, a assessoria de Daniel Vorcaro não quis comentar as transações. Outras empresas citadas, como a Eclipse, afirmaram que prestam serviços regulares de tecnologia de forma remota, justificando o uso de endereços simples apenas para fins de cadastro.