
El Niño sacode o mercado livre de energia e gera forte oscilação nos preços dos contratos
O clima está mexendo diretamente com o bolso de grandes consumidores no Brasil. O avanço do El Niño começou a provocar uma forte oscilação nos custos de eletricidade, dividindo as expectativas de curto e longo prazo.
Embora as chuvas volumosas tragam alívio imediato para os próximos meses, o temor de uma seca severa nos próximos anos acende o sinal de alerta entre os principais especialistas do setor elétrico nacional.
Essa movimentação atípica de tarifas já mexe com o planejamento de grandes empresas, conforme dados da BBCE divulgados em reportagem da Folha de S.Paulo que detalham o cenário de incertezas no mercado livre de energia.
A queda expressiva nos preços de curto prazo
Nas últimas semanas, os contratos de fornecimento de curto prazo registraram quedas expressivas. Os acordos para os meses de agosto e setembro chegaram a despencar até 44% em relação aos valores praticados no fim de maio.
Segundo dados da BBCE, o Balcão Brasileiro de Comercialização de Energia, os contratos com fornecimento em setembro na região Sudeste fecharam o mês a R$ 138,32 o MWh, queda de 14% ante junho e de 44% em relação ao último dia útil de maio.
Já os ativos com vencimento em agosto, que acumulam queda de 23% nos dois últimos meses, encerraram julho a R$ 188,86/MWh. Essa redução temporária é explicada diretamente pelo excesso de chuvas na região Sul do país.
Eduardo Rossetti, diretor-executivo de produtos e relações institucionais da BBCE, explica que o sistema brasileiro depende de água, então se chove mais o preço cai, se chove menos o preço sobe. Ele aponta que, em julho, choveu 256% da média histórica no Sul.
A torção de curva e o temor para o ano de 2027
Por outro lado, os contratos de longo prazo com entrega a partir de 2027 seguiram o caminho oposto. Eles registraram uma valorização na casa de 1%, um movimento que chamou bastante a atenção de especialistas do setor.
Esse fenômeno de direções opostas, chamado de torção de curva, indica que os agentes do mercado livre de energia temem os impactos futuros do El Niño, especialmente a intensificação da seca nas regiões Norte e Nordeste do país.
Os contratos que abrangem o período entre fevereiro de 2027 e janeiro de 2028 subiram 1% na comparação com maio e 4% na comparação com junho, refletindo uma percepção de risco muito maior para o futuro da geração nacional.
Eduardo Rossetti destaca que, com a entrada das usinas de Jirau e Santo Antônio, em Rondônia, e de Belo Monte, o Norte passou a ter uma relevância maior. Segundo ele, essa mudança é especialmente importante para 2027.
Impactos na geração eólica e no Centro-Norte
A preocupação com a falta de chuvas no Centro-Norte é real e compartilhada por Maikon Del Ré Perin, executivo da área de risco e inteligência de mercado da Ludfor. Ele afirma que o Centro-Norte claramente terá chuvas abaixo da média, e os reservatórios devem sofrer.
Além da hidrelétrica, a geração de energia eólica também corre riscos severos. O El Niño costuma enfraquecer a chamada alta subtropical do Atlântico Sul, o que reduz drasticamente a força dos ventos na região Nordeste.
Maikon salienta que, no fim do ano, que é a safra das eólicas, a previsão é ter menos ventos. Isso resulta em uma geração menor do que o esperado, pressionando os preços para cima e gerando forte instabilidade.
Consumidores do mercado cativo também estão vulneráveis
Os impactos do fenômeno climático não se limitam ao mercado livre de energia. No mercado cativo, que atende os clientes residenciais, o setor já se movimenta para mitigar os impactos, embora os efeitos demorem mais a aparecer na conta de luz.
A expectativa geral é de que ocorra um maior uso de usinas termelétricas, elevando o custo de operação de todo o sistema. Em julho, o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico, o CMSE, agiu para garantir a segurança do suprimento.
O comitê antecipou o suprimento de cinco usinas termelétricas que venceram o leilão de reserva de capacidade e que deveriam operar apenas em 2027 e 2028. Com isso, elas serão remuneradas antes, e os consumidores pagarão essa conta por meio de encargos.


