
Como a Intel superou o pior momento de sua história com um resgate bilionário do governo americano e agora desafia as rivais de tecnologia
A Intel, que já dominou de forma absoluta o mercado mundial de processadores, esteve muito perto de enfrentar uma divisão forçada ou até mesmo o colapso de suas operações.
Em meio a prejuízos recordes e uma forte pressão de concorrentes, a empresa precisou passar por uma reestruturação radical que mudou os rumos do setor de tecnologia.
O processo de salvação envolveu uma jogada política sem precedentes e uma dança das cadeiras no comando da companhia, conforme informações detalhadas pela reportagem original.
O resgate histórico de Washington e a participação acionária
O diretor financeiro da Intel, David Zinsner, enfrentava um dos períodos mais dramáticos da fabricante quando recebeu uma ligação do Departamento de Comércio dos Estados Unidos.
O governo federal apresentou a ideia de adquirir uma participação de 10% na empresa, deixando claro que a estrutura da transação não estava aberta a negociações de forma alguma.
Para alcançar os 10% exigidos pelo presidente Donald Trump, a Intel converteu bilhões de dólares em subsídios do Chips Act de 2022 e US$ 3,2 bilhões em contratos de defesa em ações.
O conselho inicialmente rejeitou a conversão, mas acabou aceitando dois dias depois, selando a maior intervenção federal em uma empresa americana desde o resgate da General Motors em 2009.
Essa ação salvou a única empresa com sede nos Estados Unidos capaz de fabricar chips avançados, trazendo alívio para o mercado global que temia a dependência excessiva da taiwanesa TSMC.
A reestruturação radical sob o comando de Lip-Bu Tan
Quando Lip-Bu Tan assumiu como presidente-executivo, o cenário era sombrio, com a receita estagnada e um prejuízo acumulado de US$ 18,8 bilhões registrado no ano de 2024.
O analista G Dan Hutcheson, da TechInsights, apontou o cenário: “Eles ainda achavam que eram a velha Intel, onde tudo acontecia nos termos deles. Eles tinham todas essas camadas que geravam desperdício, com gerentes gerenciando gerentes… O tempo de decisão havia desacelerado.”
Tan agiu rápido e cortou mais de 20 mil empregos em seis meses, o que representa um quinto do quadro total, além de vender participações na Altera e na Mobileye por US$ 5,2 bilhões.
O executivo também reformulou toda a equipe de gestão, trazendo nomes experientes de mercado para liderar as áreas de engenharia, centros de dados e tecnologia governamental da empresa.
A corrida tecnológica contra a gigante TSMC
A Intel passou a última década ficando atrás dos processos da TSMC, o que fez gigantes como Apple, Nvidia e AMD dependerem quase totalmente da fabricante de Taiwan.
Para reverter esse cenário, Tan confirmou o compromisso com o novo processo de fabricação 14A, essencial para atrair clientes externos e competir no mercado de ponta.
A empresa iniciou conversas com grandes clientes e elevou a previsão de investimentos em capital para até US$ 20 bilhões este ano, demonstrando grande confiança na retomada.
Uma parceria com Elon Musk no projeto Terafab, focado na construção de uma grande fábrica de chips nos Estados Unidos, ajudou a impulsionar fortemente o valor das ações da empresa.
Além disso, a gigante Apple já está testando os processos de fabricação da Intel com o objetivo de produzir chips M de gerações anteriores voltados para notebooks da marca.
O foco em inteligência artificial e a reação do mercado
Paralelamente, o novo CEO reorganizou a divisão de chips de inteligência artificial, criando projetos de chips personalizados em parceria com grandes empresas de tecnologia do setor.
A Intel também se beneficiou da alta demanda por unidades centrais de processamento, como o chip Clearwater Forest, que é muito utilizado para gerenciar cargas de trabalho de IA.
Timothy Arcuri, do UBS, analisou o novo cenário: “Esses produtos terão uma participação pequena, mas estarão em mercados grandes. Lip-Bu não precisa de uma grande fatia para adicionar vários bilhões de dólares em receita.”
Desde a histórica intervenção do governo, a Intel recebeu US$ 5 bilhões de investimento da Nvidia e US$ 2 bilhões do SoftBank, fazendo suas ações mais do que quadruplicarem.
Embora o desafio de entregar resultados práticos ainda continue, a fabricante de chips conseguiu afastar o fantasma da falência e reescrever sua história no mercado global.